domingo, 6 de maio de 2012
Oswaldo de Oliveira, um compositor em busca de liberdade
Patrocinadora de programas musicais da TV nos anos 60, as Lojas Tonelux ajudaram a formar um cantor e compositor que ficou pelo caminho. Filho de um funcionário da rede, que vendia eletrodomésticos na Rua Senador Dantas, Oswaldo de Oliveira esteve sintonizado com as mudança da sociedade da época desde que ouviu pelo rádio a estreia de Pelé pela seleção, em 1957. Dez anos depois, ao ver o trabalho do pai ser afetado pelo cenário de instabilidade política da época, o adolescente usou a arte para expressar suas convicções como faz até hoje, ao priorizar o talento à combatividade no meio-campo dos times que dirige.
— Não tinha como ficar no muro. Morava em Realengo, um bairro proletário, e sentia as injustiças. Comecei a participar de festivais de músicas e poesia. Ganhei duas vezes, na escola e no Bangu, com a mesma música: “Brasileiro com casca e tudo” — disse, antes de recitar seus versões campeões. — Desculpa se eu desafino, canto por necessidade. Pois, cantando, determino um instante de liberdade.
Nome do bairro onde nasceu há 61 anos, Rio Comprido dá a medida trajetória que fez correr o mundo sem perder as raízes que o ligam até hoje à antiga Zona Rural da cidade. Apesar dos bisavós alemães e portugueses, a família de quatro filhos foi criada numa realidade tipicamente brasileira. Antes de sua ascensão meteórica como técnico, campeão brasileiro e mundial na primeira temporada, Oswaldo teve que andar muito até um ponto em que os horizontes se abriram além dos limites do subúrbio, hoje conhecido como Zona Oeste
— A gente subia morro, catava tamarindo, tangerina, tomava banho de rio. Na rua, o pau comia mesmo — disse sem eufemismos politicamente corretos para condenar uma prática que à época era questão de afirmação e sobrevivência.
No futebol, não precisou se impor pela força. Tratado como um visionário ao escalar um apoiador (Fellype Gabriel) no lugar de um volante (Renato) na final da Taça Rio, o técnico foi apenas fiel aos seus princípios de ter só um jogador de marcação à frente da zaga. Foi assim no Corinthians, quando Vampeta tinha a companhia de Rincón, Marcelinho e Ricardinho no meio-campo.
Um camaleão do futebol
Ao chegar ao Fluminense, que levaria ao terceiro lugar do Brasileiro de 2001, Oswaldo desfez a dupla de volantes Marcão e Fabinho para a entrada de um jogador mais ofensivo. No São Paulo, campeão paulista de 2002, Fábio Simplício só continuou jogando ao lado de Maldonado porque passou a atacar e a fazer gols. Em vez de deixar dois cães de guarda, presos na entrada da área, a orientação é soltar o talento e levar o adversário para passear pelo campo todo:
— Sempre gostei de armar o meio-campo assim, mas não é do dia para a noite. É preciso trabalhar essa filosofia.
A mudança começa pela educação. Incentivado pela família a se formar, teve que pegar o caminho mais longo e seguro para chegar ao futebol pelo meio acadêmico. Aluno e professor da rede pública numa época em que não havia policiais nas escolas, Oswaldo foi alfabetizado num período em que o Brasil começava a ler o futebol de uma forma mais otimista e generosa, após o trauma da derrota em casa.
— O mais importante é esse amor pelo futebol. Meu pai era vascaíno, mas logo mudei. Sou um camaleão do futebol.
Nascido em 5 dezembro de 1950, Oswaldo aprendeu a andar pelas próprias pernas junto com a seleção a caminho dos anos dourados. Ainda menino, seus olhos azuis brilharam ao ouvir os chiados do rádio se misturarem a voz do pai, que anunciava a chegada do novo rei. Apesar do empenho para se destacar nas peladas e na cena cultural do bairro, Oswaldo fazia parte de um respeitável público que ia aos estádios para ver grandes espetáculos de futebol.
— A primeira vez que fui ao Maracanã foi para ver um Botafogo e Fluminense — disse, sem ver naquela vitória do tricolor por 1 a 0 em setembro de 1957 um mau presságio para o jogo de hoje. — Foi gol do Escurinho com a perna direita numa falha do meu amigo Adalberto. Não ligo para superstição. Sei que agora é comigo mesmo.
Da plateia para o centro das atenções, a caminhada exigiu um raro condicionamento, que Oswaldo cultiva até hoje com corridas, natação, alimentação moderada e um chopinho que eleva o espírito sem prejudicar o corpo quando é erguido para celebrar bons momentos. Para conseguir vaga no curso de Educação Física da UFRJ, precisou passar por um teste que reprovou atletas profissionais. Matriculado para o segundo semestre, conseguiu vaga numa empresa que trabalhava na construção do oleoduto entre Santa Cruz e Volta Redonda. Fazia testes de laboratório até ser enquadro pelas câmeras de uma produtora que rodava um documentário sobre a empreitada. Assim, o funcionário temporário se tornou modelo de versatilidade:
— Fiz uma campanha para o Dia de Ações de Graças na TV que se repetiu ao longo de muitos antes. Também participei do anúncio da Coca-Cola para a Copa de 1978. Eu vinha com a bola, passava por dois e dava uma lambreta — disse sem ter a comprovação de tamanha habilidade. — Outro dia, pedi para um amigo procurar nos arquivos da TV, mas não apareceu.
A lenda é mais forte do outro lado do mundo. Nos cinco anos em que ficou no Japão, ganhou três edições do campeonato nacional, além de reverências e de uma biografia. No Brasil, contenta-se em ser apenas um verbete de uma literatura mais densa:
— Aqui tem muita gente na minha frente.
Oswaldo deu a impressão que furaria a fila no período em que a seleção teve cinco técnicos entre as Copas de 98 e 2002. Pela facilidade de armar bons times e de expressar suas ideias, era tido como a opção pela modernidade. Dez anos depois, viu as avalizações mudarem de acordo com os resultados. Sem títulos nos últimos cinco anos em que trabalhou no Brasil, passou a ser criticado pela falta de entusiasmo e pelo linguajar rebuscado.
— Não mudei nada — disse em bom português e vocabulário mais vasto do que a maioria de seus colegas. — Aos 61 anos, já imaginou quantos livrou eu li, quantos filmes eu vi e com quanta gente eu já conversei?
Desde os filmes de vampiro no Cinema Realengo, os personagens mudaram junto com o lugar de Oswaldo. Da plateia para o grande palco do futebol, trocou a canção de protesto pelo desejo de cantar que é campeão carioca. No fim, o grito de liberdade será o mesmo para um brasileiro que devorou os desafios da vida com casca e tudo.
Fonte: O Globo Online (texto) e Fernando Soutello/AGIF (foto)
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