Um monumento imponente no coração do subúrbio, que conjuga beleza arquitetônica com modernidade, boa visão do espetáculo com funcionalidade. Casa do futebol carioca desde o fechamento do Maracanã, o Engenhão é um ente querido, mas ainda distante do torcedor. Talvez porque, a pouco menos de dois meses de seu quinto aniversário, siga em luta contra os mesmos problemas desde que foi inaugurado.
A acessibilidade é um fantasma que insiste em afugentar as massas de sua maior paixão. Sobre quatro rodas ou trilhos, chegar e partir sempre demanda paciência, resignação quanto à qualidade de serviços e uma dose de obstinação. O trem, principalmente na hora de voltar para casa durante a semana, ainda não caiu no gosto popular. Seja pelo número insuficiente de composições ou pelo temor pela falta de segurança, quem usa se ressente de bom atendimento.
- O serviço de trem na volta é precário. A demora é tanta que desencoraja o frequentador - afirma Lucas Melo, morador da Praça Saens Peña.
Concessionária do serviço, a Supervia alega que o planejamento da operação é feito com base na expectativa de público definida em reuniões semanais na Federação do Rio e na média histórica das competições. Seja qual for, pesquisas da empresa apontam que, desde 2009, a procura do torcedor nunca foi superior a 20% da audiência.
Usuário acostumado
Em jogos decisivos como o de hoje, normalmente são disponibilizados três trens extras para cada ramal - Central, Santa Cruz e Japeri -, cada um capaz de transportar 1.500 pessoas. O intervalo da grande normal no domingo, segundo a empresa, costuma ser de 40 minutos. hoje, a promessa é que seja de 20. No meio de semana, há geralmente apenas um trem extra para cada destino. Como este só parte quando lota, o torcedor que entrou na estação Engenho de Dentro tão logo o juiz pediu a bola sofre com a espera.
- O usuário do trem está acostumado a esses intervalos - pondera Sônia Antunes, gerente comercial da SuperVia, acrescentando que as quase 90 estações dos três ramais permanecem abertas, com efetivo de funcionários e agentes de segurança até o último torcedor desembarcar, numa operação de custo desconhecido. - Até hoje não sabemos o quanto gastamos.
Nas noites de shows de Paul McCartney, o usuário não teve do que reclamar. Administrador do estádio até 2027, o Botafogo lamenta, no entanto, que o futebol não seja tratado como prioridade. A diretoria diz que há anos cobra grade mais adequada para jogos e a adesão do bilhete único entre a empresa e o metrô, mas a proposta nunca foi levada adiante. O empurrão poderia ser dado pelo governo do Estado, que, na visão do clube, deveria impor a prestação de um serviço de excelência.
- Concessionária de serviço público pode e deve ganhar dinheiro, mas tem uma obrigação implícita com a sociedade - afirma o diretor executivo alvinegro, Sérgio Landau. - Por algum motivo, parece não haver interesse econômico.
Ir de carro ao Engenhão também não é recomendável. Quem sai da Zona Sul e pega a Linha Amarela via Linha Vermelha começa em três pistas e desemboca numa única. Os engarrafamentos são inevitáveis. Em jogos de meia de semana, o acesso pela Rua 24 de Maio não foge à regra. Na falta de bolsões de estacionamento, o do estádio, na Rua das Oficinas, é uma das raras alternativas, mas a Rua Dr. Padilha, caminho natural para quem quer chegar lá, é fechada pela própria CET-RIO. Os motoristas têm de entrar na Rua Piauí, onde a convergência com carros vindos de outras direções torna o transtorno inevitável.
- O esquema de trânsito está no site - limitou-se a dizer um assessor da CET-RIO.
O comércio de comida e bebida por moradores na Dr. Padilha, permitido por um decreto de 2007 promulgado pelo ex-prefeito Cesar Maia, assim como a presença de ambulantes, esvaziam a receita do estádio, questiona o Botafogo. Em dezembro do ano passado, o secretário especial da Ordem Pública, Alex Costa, anunciou novo decreto que proibiria a venda de cerveja nas duas horas antes e depois dos jogos, como já havia feito o prefeito Eduardo Paes em 2010, no Maracanã.
Conciliar interesses
O intuito é frear a violência e melhorar o fluno no entorno do estádio. Até agora, porém, nada aconteceu.
- Estamos conversando para conciliar os interesses de todos. O Engenhão parece que foi recortado e posto ali onde está - explicou o secretário.
Atualmente, a Secretaria Municipal de Obras faz melhorias na rede de drenagens e promete entregar no segundo semestre o Viaduto da Abolição, que voltará a unir o bairro e facilitará a vida de quem deixa o estádio em direção à região da Barra e de Jacarepaguá. Por enquanto, não há previsão para o alargamento das calçadas. Enquanto os problemas persistirem, é normal que o torcedor pense sempre duas vezes antes de deixar o sofá de casa.
Fonte: O Globo
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