O trabalho duro, a luta por uma mudança de mentalidade e a busca por um bom futebol durante os 23 jogos em que o Botafogo ficou invicto este ano deram lugar a uma nuvem sombria desde o domingo passado. Foi quando o time perdeu por 4 a 1 para o Fluminense, na primeira partida da final do Campeonato Carioca. Um golpe duro que obriga os botafoguenses a partirem para uma façanha hoje: vencer o tricolor por uma diferença de três gols e levar a decisão para os pênaltis. No meio da semana, um novo nocaute: a eliminação da Copa do Brasil pelo Vitória. Para a maioria, o fim do caminho. Não para quem é guiado pelo símbolo da estrela solitária. Ela sinaliza o caminho da luz. É com este espírito, sua história e tradição que a equipe alvinegra entra em campo hoje para tentar uma daquelas façanhas que volta e meia surpreendem o mais pessimista torcedor.
A palavra usada pelo técnico Oswaldo de Oliveira foi ressuscitar. Entre os jogadores, o termo usado foi façanha. Em comum, a consciência de que existe uma oportunidade de ouro de a equipe dar um salto de qualidade e recuperar as forças que andam no limite da exaustão. Coisas de quem vive entre a euforia e a depressão e corre em busca do equilíbrio.
Trabalho psicológico
Foi nesta tecla que a comissão técnica do Botafogo trabalhou desde a derrota humilhante por 4 a 1 para o Fluminense. No domingo passado, no vestiário após o jogo, o experiente Oswaldo de Oliveira tomou algumas medidas imediatas: desviar rapidamente a atenção para o jogo da quarta-feira, em que o time teria a chance de passar para as quartas de final da Copa do Brasil, conversar com o lateral-direito Lucas, que fora expulso no segundo tempo, o que facilitou a goleada e comunicar ao jovem Gabriel, um volante dos juniores que vem atuando improvisado na posição, que ele seria o substituto de Lucas. Tudo para que o jogador já ficasse preparado.
Ao mesmo tempo, os jogadores mais experientes trataram de tomar a iniciativa de lembrar que nada estava perdido e que não existiam culpados individuais.
— No Botafogo, ganham todos e perdem todos. Não adianta culpar um ou outro. Somos um grupo — lembrou o zagueiro Antônio Carlos.
Oswaldo de Oliveira estava consciente de que não teria tempo para trabalhar os jogadores no campo. Mais: que muitos já davam sinais de exaustão, após uma sequência que vai culminar hoje com o quinto jogo de alto nível de exigência em duas semanas.
— Já saí de situação mais complicadas, mas tendo tempo para treinar. O que vou fazer é trabalhar muito a parte psicológica e conversar com eles sobre o que quero no campo — disse Oswaldo.
Na segunda-feira, coube à psicóloga Maira Ruas ajudar no trabalho de levantar o ânimo de um time ainda abatido, apesar de todas as palavras de incentivo ditas no vestiário. O trabalho foi dividido em uma parte coletiva e outra individual para os jogadores que sentiram mais o golpe. O treino foi regenerativo. Maicosuel ditava o tom:
— Foi horrível. Não dormi, nem tive vontade de sair de casa. Não quero passar por isso nunca mais.
Na terça-feira, o foco total era no Vitória. Além de vídeos, Oswaldo ainda se deu ao trabalho de explicar como o time deveria reagir no caso de ter jogador expulso: formar duas linhas de quatro e deixar um atacante. O Fluminense foi um assunto esquecido. O treino mais uma vez foi apenas físico e regenerativo.
Na quarta-feira, o jogo contra o Vitória e a esperança de o time ganhar novo fôlego. O alvinegro abriu o marcador com Elkeson, mas os nervos não estavam no lugar e a exibição não era boa. No final do primeiro tempo, o mesmo Lucas, expulso contra o Fluminense, na tentativa de salvar um gol, pôs a mão na bola na linha do gol. Era o último homem e foi expulso. O clima ruim foi salvo pelo goleiro Jéfferson, que defendeu o pênalti e criou a expectativa de que a sorte voltava a sorrir para o Botafogo.
O segundo tempo se encarregou de mostrar que a lição de jogar com dez não fora assimilada e o time perdeu de 2 a 1, saindo debaixo de vaias.
Espírito indomável
No final do jogo, Loco Abreu, ao explicar que no futebol a derrota faz parte do jogo, acabou magoando muitos de seus fãs, ao dizer que iria para casa e abraçaria seu filho. Na cabeça de Loco, todos deram o melhor de si, e o resultado não veio. Na do torcedor, a decepção por ver o ídolo conformado, abandonando um pouco a velha garra charrua e seu espírito indomável.
Na quinta-feira, nova conversa com os jogadores e o pedido para que todos falassem e expusessem o que pensavam. Uma terapia grupal. Na sexta-feira, um rápido treino no campo. Ontem, vídeos do Fluminense. Hoje, vídeos motivacionais e a tática do jogo com a volta do esquema que deu certo na competição, com muita posse de bola e conclusões, longe da ligação direta feita no primeiro jogo da final contra o Fluminense. Se a estrela-símbolo guia, cabe aos jogadores fazerem um papel digno e recuperarem o brilho de sua luz. Sob pena de permanecer no breu.
Fonte: O Globo Online
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